“A praça, a praça é do povo!/Como o céu é do condor!/É antro onde a liberdade/Cria a águia ao seu calor!/Senhor, pois quereis a praça?/Desgraçada a populaça!.../Só tem a rua de seu ”
Era o ano de 1864, Borges da Fonseca fazia um comício republicano em uma praça do Recife, quando a cavalaria da polícia dispersou a multidão com extrema violência.
Castro Alves era estudante da Faculdade de Direito e movido por forte emoção declama de improviso, naquele momento, o poema acima que é um manifesto em defesa à liberdade.
Mas por que em vez de escrever sobre o dia do Trabalhador que se comemorou ontem, estou rememorando o poeta dos escravos?
Infelizmente, leitor, liberdade é uma lição de casa que temos de refazer todos os dias, lição que temos de aprender e ensinar a todo momento, em casa, nos meios de transporte, nos meios de comunicação, na rua, e, principalmente nas praças. E se indignar diante das injustiças – de todas as injustiças- também.
Ontem, dia lindo de sol em São Paulo fui com um amigo à Praça da República (atente para o nome da praça- República) palavra que, entre outras coisas, significa (do latim res publica, "coisa pública").
Lá estávamos nós, meu amigo e eu, quando passou por nós um homem muito magro e raquítico, que nos pareceu ser morador de rua, com uma marmitex na mão, comendo. Nâo fazia nada, além disso: comia sua refeição; e fazia isso caminhando pela praça.
Para sua infelicidade, foi visto por quatro homens, tipo trogloditas, que nos pareceram ser ou fiscais ou seguranças daquela feira. Imediatamente os quatro se sentiram incomodados com aquela presença e lhe ordenaram que se retirasse da praça.
É incrível, mas a pobreza incomoda. A miséria não incita à busca de soluções, pelo contrário, em muitos incita a buscar dentro de si o que há de mais sórdido, mais maléfico, mais impiedoso.
Surpresos, ficamos olhando. Por que expulsar aquela pessoa, se ela nada fazia de mal ali? Expulso, o morador de rua saiu caminhando para fora da praça, mas aquele gesto não satisfez um dos trogloditas, logo depois ele começou a empurrar o homem pelo braço, e a partir daquele momento resolvemos segui-los.
Assim que se viu fora dos olhares do público que se encontrava no local, o troglodita começou a esmurrar o pobre coitado e a dar-lhe pontapés. Foi quando nós dois, meu amigo e eu, resolvemos intervir.
Perguntamos-lhe por que agia daquela maneira sendo ele tão forte fisicamente e o outro tão frágil? Perguntei qual era o nome dele, pois iria denunciá-lo pelos jornais, mas ele me perguntou se eu era policial, e não disse seu nome.
Questionei-o: “se você é tão valente para espancar um pobre coitado que mal consegue se pôr de pé de tão magro e fraco, por que não diz seu nome?”
Mas ele apenas nos olhou irritado e foi juntar-se aos outros três que estavam parados na feira.
O homem desapareceu com sua marmita, e em seus rastros me deixou relembrando que ali foi um local que nos anos 60 e 70 os poetas expunham varais de poesia, vendiam livros da chamada literatura marginal que havia na época, que aquele local abrigou os hippies que tanto pregavam “Paz e Amor”, e lamentei ser agora um espaço povoado por (fiscais? Seguranças?) com aquela “ (de)formação”.
Saímos de lá pensando: se não estivéssemos ali, o que aquele troglodita teria feito com o morador de rua? O mesmo que o mocinho rico de Brasília fez com o índio Galdino? Será que de agora em diante teremos de dar plantão nas praças de SP, para evitar que assassinem mais moradores de ruas, gays, negros, judeus e nordestinos?
Que tenham a palavra os responsáveis por aquela Feira de Artes.
3 comentários:
jane deixou um novo comentário sobre a sua postagem "A Praça é do Povo? Risomar":
OI RISO! SAUDADES !
GOSTEI DE SEU MANIFESTO, O QUE SERIA O DIA DO TRABALHO SEM SUA ATITUDE DIANTE DE TANTO PRECONCEITO DE SERES HUMANOS COMO NÓS, É UMA VERGONHA PARA TODOS TAIS CENAS COMO A QUE VOCÊ ASSISTIU E EU E MUITOS ASSISTIMOS TODOS OS DIAS.
PARABÉNS ! VOCÊ DEU UM MOMENTO SEM DOR PARA UMA FRÁGIL CRIATURA...
BEIJOS !!!!!!!!!
beth marino para mim
mostrar detalhes 3 mai (4 dias atrás)
beth marino deixou um novo comentário sobre a sua postagem "A Praça é do Povo? Risomar":
Lírio,ir até a pça é um perigo constante atualmente, o espaço público foi tomado pela violência ou a violência apenas se expressa melhor lá? Lírio,nós que só temos palavras e indignação precisamos ser de alguma maneira mais fortes... (fisicamente?).
Lírio, moro no centro da cidade,território livre e anônimo, onde flui barbaridades diárias...
A Pça é do Povo,mas o Povo não sabe.E "trogloditas" imperam...Ficar em casa esperando Godot.....???????????????
Olá, Riso. E o que falar das grades nas praças ? Grades para prender, impedir o quê, quem? Praça com grades para quê? Abçs , Marili
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