Um dos maiores povos indígenas do Brasil está sendo dizimado na frente dos nossos olhos, sem que ninguém consiga impedir. Ao longo dos anos foram atacados em todos os aspectos, seja pela expansão agrícola de empresas de capital externo, ou por sojeiros e pecuaristas sem
coração, que enxergam a terra como um grande banco onde podem sacar suas riquezas a hora que quiserem, sem nenhuma contrapartida social; pelo contrário, eles derrubam as matas e as florestas aceleradamente, deixando atrás de si morte e destruição.
Um exemplo disto foi o que aconteceu recentemente com um grupo Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Após uma retomada da terra, no município de Amambai, 40 homens encapuzados entraram na aldeia e mataram o cacique Nísio Gomes, e segundo relatos dos índios, três crianças desapareceram, deixando o Acampamento Guaiviry em desespero.
Os quatros primeiros dias foram de muita privação disse-me o filho do cacique Nísio. Para não chamar a atenção dos fazendeiros, só comíamos milho e não acendíamos o fogo para não denunciar nossa presença. E agora, tem comida? pergunto ao Genito,e ele me responde que o grupo está padecendo de tudo, sobrevivendo apenas de tilápias, de algumas raízes, e de um pouquinho de arroz que ainda resta.
Eles passam o dia na mata dando entrevistas a jornais e a canais de TV de vários lugares, pois o fato tornou-se conhecido em todo o mundo, devido à barbaridade dos assassinos.
Sensibilizado com esta situação, resolvi fazer uma visita solidária aos kaiowá, e para não chegar de mãos vazias fiz uma campanha para levar leite para as crianças, e assim amenizar um pouco a situação de fome existente na aldeia. Logo no início da campanha, me deparei com um primeiro problema no Facebook, quando um intelectual de carteirinha me criticou por levar leite em pó, e assim descaracterizar a cultura dos kaiowá. Como percebi que ele conhece a questão indígena apenas através da literatura que idealiza o índio como puro e intocável, resolvi não dar trela para suas afirmações, e fui em frente na campanha do leite.
Em pouco tempo consegui 177 sacos de leite de 400 g , que foram acomodados em duas malas gigantes totalmente lotadas e pesadas. Recebi ajuda de instituições e de amigos, em sua maioria religiosos da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, mas tivemos uma ação macroecumênica que uniu pessoas de boa vontade para ajudar na minha viagem.
Eu tinha comigo uma literatura Bíblica que estava em minha casa, um livrinho infantil da SBB (Sociedade Bíblica do Brasil) e alguns exemplares do Novo Testamento que resolvi levar também. Este foi o segundo ponto de conflito: levar a Bíblia para os índios que já foram massacrados por missionários do passado? Não se lembram da cruz e da espada? Da morte da cultura imposta por um deus branco e ocidental? Sabe, né? aqueles discursos já bem batidos pelos historiadores, antropólogos e sociólogos e artistas também...Rs. Como eu sei que a bíblia é uma ferramenta perigosa e pode tanto libertar como escravizar, dependendo de quem a maneja, resolvi arriscar, pois afinal quem conhece o movimento profético de Amós, Miquéias e Isaías, sabe que eles foram homens totalmente comprometidos com as causas sociais dos mais fracos e oprimidos, e que Javé ergue do pó o desvalido e do monturo o necessitado, e dá pão ao que tem fome e viu a opressão dos ricos sobre os pobres.
Lembrei do Deus que Frei Beto, Pedro Casaldáliga, Dom Hélder Câmara, Dietrich Bonhoeffer, Luther King e Jaime Wright acreditam, e resolvi levar o pão da alma para meus irmãos kaiowá. É bom lembrar que foram dois religiosos que fizeram todo o processo do “Brasil: Nunca Mais”, patrocinado pelo CMI, que há pouco tempo fez a repatriação de toda documentação e a devolveu ao Brasil, através do Rev. Olav Tveit da Noruega.
Voltando à viagem: vi que somente uma força muito grande me fez chegar à aldeia. Há poucos metros da minha casa, a primeira mala deu sinal de que iria me deixar na mão, as rodinhas quebraram e o jeito foi pedir socorro a Risomar, que veio para me ajudar a levar até o trem de Osasco na estação Presidente Altino. Subi no elevador e a Riso dando marcha a ré, bate no poste da estação, me deixando com a impressão de que coisas piores iriam acontecer. E aconteceram logo mais na frente, quando desci errado na estação da Lapa e um jovem tentando me ajudar a tirar a mala do trem, arrastou-a entre o trem e a plataforma e a haste que segura a mala se desprendeu. Voltando a pegar o outro trem, desço na Barra Funda e não conseguindo carregar as duas ao mesmo tempo, deixo uma perto da catraca e desço para o local da saída do ônibus que me levaria a Guaíra(PR). Volto para apanhar a outra mala que no trajeto quebra a segunda haste, e daí levo uma mala sem alça.
Finalmente embarco e tomo todo cuidado para o cobrador não pegar nas malas, eu mesmo as colocava no bagageiro, com medo de pagar excesso de peso. Chego a Guaíra e apanho outro ônibus até Mundo Novo ou Novo Mundo e depois para Amambai. Me instalo em um hotel junto da rodoviária e aguardo o dia amanhecer para levar as malas para a aldeia. Tive a ideia de pedir ajuda a um pastor da cidade, disse-lhe que compraria a gasolina e ele me levaria até a aldeia, ele pediu desculpas e disse que cinco fazendeiros fazem parte da sua Igreja, e que politicamente era inviável me servir. Os índios são discriminados nas cidades do MS e são vistos como mendigos, vagabundos e invasores de terras.
Na manhã seguinte embarco em um ônibus com destino a Ponta Porã e desço na entrada do Guaiviry. Por sorte havia três rapazes indígenas e uma moça da aldeia no ônibus. Eles levaram as malas, e vi que as deixaram cair várias vezes no trajeto. Que bonito foi ver sair de dentro das matas homens com armas e instrumentos musicais para meu encontro. As mulheres e crianças começaram a dançar e a cantar, e logo eu estava totalmente à vontade.
No caminho paramos no local da emboscada, e o filho do cacique Nísio Gomes, que foi assassinado, me explicou como foi a morte do seu pai e o sequestro do corpo. A partir daquele momento esqueci das malas, dos problemas pessoais e me detive na luta pela sobrevivência daquele povo que resiste até à morte para ter de volta seu direito à vida. Fui ouvindo os relatos, as crianças me cercando e uma linda menina de 11 anos se destaca pela sua força de expressão e de liderança. Seu nome é Jhon Mara e é neta do cacique morto. Ela está em toda parte tomando a frente e falando sobre tudo que aconteceu, no final me entrega um bilhete que me deixa triste, ao ver uma criança daquela idade dizendo que vai morrer lutando pela terra.
Os irmãos indígenas fizeram uma grande festa com o leite,a literatura e o material de desenho e pintura que levei. As crianças se puseram a desenhar e a pintar. Depois cada um abriu os livros para ler ou ver as imagens. A Jhon Mara leu com muita maestria a história de Natal do Menino Jesus e cada um queria participar. Falei para o filho do Nísio que tinha comigo 500,00 reais para fazer uma compra no supermercado de Amambai, e que eles deveriam fazer a lista das compras, e no dia seguinte eu iria esperar por eles na cidade.
Às oito da manhã o Genito Gomes, sua esposa e filhos chegam para fazer as compras e os deixei totalmente à vontade para escolher o que eles queriam...As coisas básicas de toda família e alguns itens me chamaram a atenção: mate para chimarrão, fumo de rolo, bombons e pirulitos. Que fazer, dar uma aula de nutricionismo para eles? Dizer que o fumo faz mal a saúde? Pedir para eles deixarem o supérfluo do mate por pão? Claro que não, os índios têm os mesmos direitos de buscar o prazer que os da cidade.
Quando chegamos à aldeia foi uma festa abrir os pacotes e ver as crianças avançando nos pirulitos e nas balas, doce veneno! Afinal aquelas balas tinham gosto de hortelã, foi uma emoção ver aqueles adultos chupando pirulitos!
Chegou a hora da despedida e da conversa séria. Eles me contaram que precisam de tudo, estão descalços e sem provisão, a FUNAI não pode ajudar, pois ainda não começou o processo de demarcação e por enquanto eles são considerados “invasores”. As crianças pedem escola e professores. Falei que no ano que vem vou receber uma ex-prisioneira Mapuche chilena, Patrícia Troncoso, que fez a maior greve de fome da história do Chile, durante 112 dias, e que foi considerada terrorista pelo Estado do Chile, por defender o território do seu povo no sul do país, e que ela quer vir ao Brasil em abril para prepararmos um grande encontro dos indígenas da Abya Yala e que a levaria para fazer uma visita a Guaiviry. Recentemente a Chepa, como é conhecida no Chile, ganhou um prêmio na Itália em reconhecimento da sua luta em favor dos direitos humanos. Eles fizeram um cartaz e escreveram um convite para a Patrícia e colocaram o lema Mapuche: MARRICHIWEU!
“Se uno caen, diez se levantarán” uma alusão a morte do Nísio e a determinação de continuar a luta pela terra, mesmo que para isso seja necessário derramar seu próprio sangue.
Na volta para Sampa as imagens da visita não saíam da minha mente,
Na volta para Sampa as imagens da visita não saíam da minha mente,
parecia uma fita de cinema sendo repetida várias vezes, para não me
deixar esquecer daquele povo, daquela menina, daquele lugar escolhido
pelos Kaiowá para ser sua terra-sem-males, muito embora a força do mal
e da morte tentem impedir a concretização dos seus sonhos.
"Ou defendemos a vida onde ela está sendo esmagada, ou devemos ter a
coragem de não pronunciar o nome de jesus Cristo"





2 comentários:
Riso
nao existe um jeito de enviar diretamente o texto no facebook? ficou fantastico, o Paulo é de lascar, nao escapour ninguem de sua espada divina,rs
Excelente Paulo..parabéns...
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