segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O dia que encontrei José Condé - risomar fasanaro

Saí logo cedo. Percorri a longa avenida que une o bairro onde moro ao centro da cidade. Fui procurar. Procurar o quê? Não gosto da palavra procurar, gosto mais de encontrar. Isso. Hoje preciso encontrar alguém que conheci recentemente: José Condé.
Passando pela Avenida Hilário de ?Souza, encontrei no caminho dois pés de amora, e descobri que as frutas do primeiro são azedas, e as do segundo bem doces. Uma andarilha como eu, precisa saber dessas coisas. O de amoras mais doces é o que fica mais próximo de Vila Yara, não vão confundir. Na vida é preciso distinguir muito bem o que é azedo do que é doce. E a partir daí promover mudanças, se preciso for. Para minha tristeza, já quase não há frutos em nenhum dos dois pés, a safra está no fim.
Logo adiante, paro para comer algumas pitangas. Se um personal trainer visse isso, ficaria horrorizado- interromper a caminhada pra comer frutos pelo caminho? Esta é a única vantagem de não ter personal, aproveite...
Do outro lado da rua há um pé de azeitonas, que por aqui chamam de Jambolão. Enquanto como as pitangas “viajo” no quintal de minha infância onde havia um pé dessa árvore. Ficávamos com a língua roxa de tantas que comíamos, e na hora do almoço era aquele drama sem vontade nenhuma de comer.
Cheguei ao fim da avenida e não encontrei José condé; acho que ele deve ser preguiçoso que nem Caymmi, fica só escrevendo. Já no centro do comércio também não estava nas lojas de roupas, nem de calçados. Não é consumista...concluo.
Mas não desisto, preciso encontrar Condé, e enquanto caminho, fico pensando: como será fisicamente?
Quando Antonio Belo me perguntou se já lera alguma obra dele, fiquei envergonhada. Não, jamais lera qualquer texto do autor. Ele então me enviou “Sol do amanhecer em Macambira” e
fiquei literalmente apaixonada. Não é todos os dias que a gente encontra uma grande obra, um grande escritor. Veio daí essa vontade logo pela manhã de conhecê-lo melhor. Por isso não fui caminhar no parque, preferi ir a pé até o centro da cidade.
Entro na livraria do Plaza Shopping e pergunto. O vendedor diz que nunca sequer ouviu falar sobre ele, mas vai ao computador, e se dispõe a pesquisar. Não, não tem. Saio desanimada, mas aí me lembro de que há dois sebos na Avenida João Batista. Quem sabe?
Entro no primeiro: quem sabe ele estaria por ali, enxerido como qualquer escritor, procurando algum livro? Entrei, mas se me viu, ele nem me notou. Perguntei ao vendedor, e ele disse: olha, os espíritas dizem que ele fica sempre ali sentado, mas eu nunca o vi. Não sou médium...
Olhei e também não o vi. E eu sou lá vidente??? E os livros dele, você tem algum?
-Vou procurar.
Depois de um tempo voltou: tem não. Não tenho nada dele. Também... ele é tão antigo, eu nem tinha nascido...Nunca me interessei por...
-Moço, você vai à praia? pergunto.
-Vou, por quê?
-Você gosta do mar?
-Adoro!
Lembrei de Simão, o saxofonista, e repeti àquele vendedor o que meu amigo me disse uma ocasião:
-Pois é, moço, o mar tem bilhões de anos, nem por isso ele sai de moda, nem por isso as pessoas deixam de amá-lo. O mar existe bilhões de anos antes de você ter nascido...
O rapaz me olha meio de lado e sorri:
-Rs,rs,rs (amarelo)
-Você sabe se tem outro sebo por aqui?
-Tem. Tem um ali na frente.
-Nessa mesma rua?
-É. Talvez lá a senhora encontre algum livro do velhinho...rs
Agradeço, caminho uns cem metros e encontro o outro sebo.
-Moço, você tem algum livro do José Condé?
- José o que, moça? Conde?
-Não, moço, José Condé.
-Nunca ouvi falar.
- E será que não tem nenhum dele nesse mundo de livros que você tem aqui?
-Vou procurar, mas acho difícil...Nunca ouvi esse nome...
O rapaz vai a uma prateleira, abaixa-se (deve ser o local destinado aos” fora de moda”...) e depois de uns dez minutos, retira um livro.
Meus olhos brilham, minha respiração acelera. Qual será?
"Terras de Caruaru"? "Um Ramo para Luísa"?
-Tem esse aqui, moça (esse rapaz é bem mais gentil que o do outro sebo... é a segunda vez que me chama de moça); me entrega um volume do Círculo do Livro, encadernado, capa branca, com uma ilustração em azul e laranja.
Leio o título: “Pensão riso da noite: rua das mágoas (cerveja, sanfona e amor) “
Uma profunda alegria invade meu peito. Imagino que ele vai me cobrar uma fortuna. Aquilo é uma preciosidade!!!
-Quanto custa, moço?
-Sete real.
- Pago o livro e saio apressada, antes que o espírito do Condé apareça e me tome o volume. Este tem um destino especial. Passará pela agência do correio, e viajará de Sedex até o destinatário.
Enquanto isso, aqui continuarei minha busca, até terminar de ler toda a obra deste grande pernambucano. Agora que o encontrei em um livro, quem sabe venha a ter algum lance de médium e encontre o próprio Condé em alguma esquina?

1 comentários:

Airton Cerqueira Leite disse...

Risomar,
Comentário O DIA QUE ENCONTREI JOSÉ CONDÉ
Puxa, você gosta de fazer suspense sobre o José Condé!
Descobri que ele é o autor do conto delicioso de ser lido: "Venturas e Desventuras do Caixeiro Viajante Ezequiel Vanderlei(O Quequé)"
Você se recorda? A TV Globo realizou excelente adaptação do conto através de uma minissérie de alto nível artístico que foi ao ar com o nome de "Rabo de Saia" com Ney Lotorraca(Quequé),Dina Sfat(Eleuzinha), Lucinha Lins(Santinha) e Tássia Camargo(Nicinha.Direção de Walter Avancini, entre outubro a novembro de 1984.
Bem aproveito para informa-lá que
no portal da Estante Virtual é possível encontrar vários títulos do Condé.
O endereço eletrônico è: http://www.estantevirtual.com.br/qau/jose-conde.
AyrTON, abraços.